18.8.17

Com a ajuda do Diabo

"Ne vous élevez pas sans que Dieu vous élève", diz Teresa d'Ávila (numa tradução francesa do Libro de la Vida de Jean Canavaggio, editada pela Gallimard na colecção Folio Classique). Dado o estado de raiva em que me encontro eu acrescento "Ne descendez pas sans que le Diable vous aide".

À bruta.

Senhor Doutor Juiz, eu não gosto nada de andar à pancada, juro-lhe. Mas quando ando bato para doer, não para fazer festinhas à bruta. 

A arte do monólogo

É impossível discutir com quem não contesta os nossos argumentos mas sim o nosso direito de os emitir ou a nossa razão por atacado, sem entrar em pormenores. 

16.8.17

Escrever, sono

Apetece-me escrever, é mais do que apetecer, preciso, preciso de escrever o dia de ontem: passado na cama a queimar nojo e cansaço, o cansaço todo destas últimas quatro semanas e o nojo também, queimá-los deitado na cama a dormir como um atleta queima calorias a correr; escrever o reencontro com as ideias antigas que se transformaram em projectos recentes e futuros novos; escrever o nojo que tenho desta mistura de cobardia, maldade e estupidez, lido melhor com a maldade inteligente, a sacanice rasteira e rafeira é-me demasiado malcheirosa para que a possa manusear facilmente.

De maneira hoje passei o dia na biblioteca pública de Évora e depois fui beber uma caipirinha ao Páteo e daí vim jantar e nem a merda rafeira me estragou o dia, que vale o nojo? Nada, não vale sequer o  cansaço que provoca esquecê-lo. Espero pouco das pessoas, há muito que espero nada, não há mau cheiro que me fique nas narinas porque não lhes chega sequer.

E contar como hoje fui a um senhor monhé que repara telefones e em menos de um almoço no Cantinho da Beatriz (mas por muito mais caro) ele pôs-me o telefone a funcionar, uma protecção nova para o vidro "porque a outra está partida" e ainda ganhei uma capa para o telefone, tudo isto por menos de três vezes o preço dos almoços da C. e meu.

Continuo a ler a Hildegarde von Bingen. Já vou na quarta visão. A terceira era uma seca, saltei-a toda. Só falava de ventos e de vento estou eu farto e tinha também alguns argumentos lógicos incompreensíveis como por exemplo "o Sol ilumina as coisas altas, da cabeça até aos calcanhares; a Lua as coisas baixas, das sobrancelhas até aos tornozelos" (se não for sobrancelhas é a testa ou coisa que o valha) e eu percebo menos do que intuo o que a senhora quer dizer e passei para a quarta visão que tem a ver com estrelas e brasas.

A santa descreve as visões com o rigor de um pintor hiper-realista, mas o conteúdo tende mais para o surreal, mistura interessante e estimulante excepto quando fala de ventos, claro.

Preciso de escrever isto tudo e também o amor, a forma estranha e solavancada que ele tem de sedimentar, como se estivesse a subir uma escada e não uma rampa. Ontem foi feriado e claro que passar o dia na cama a dormir com a ajuda ocasional de uma miúda gira é mais fácil do que passá-lo sozinho, até o sono anda mais depressa e depois não sei como lá vai mais um degrau ou dois.

O bom é que a escada não tem fim.

A verdade está mais ou menos por aqui, à superfície, como se eu andasse por uma mina a céu aberto, é preciso encontrar o filão e só depois se fazem aqueles grandes círculos concêntricos pelos quais se desce sem nunca deixar de ver o céu. Encontrar uma palavra começada por V: Vértice. Vórtice. Voz. Vir. Vala. A vila devora-se a si própria.

Pensar na noite, na via láctea, nos milhares de constelações das quais desconheço o nome: não valem metade do que valem a meia dúzia que me são familiares, como Orion ou os Gémeos.

É isso: pensa na noite, no sono que te espera e protegerá, na inquietude: como atravessar uma noite a vau? Como nadar na corrente do tempo?

Como compreender a cabeça pequena da mesquinhez, as linhas tortuosas e ocas da estupidez, o buraco negro da maldade, que tudo absorve e um dia se dá a ver, patética e nua?

Prefiro isto: as veias irregulares de um pavimento sólido e híbrido, terra e pedras aquecidas pelo Sol. Não há lugar para serpentes, a menos que estejam sustentadas pela Lua. Serpentes inferiores.

Deixa-te levar pela corrente do sono: ela vai desaguar ao corpo que amas, ao corpo que te espera deitado numa pedra da calçada, a essa pele que o Sol antes de ti acariciou.

Pensa num templo do qual és guardião e hóspede. Pensa na luz que o ilumina. Pensa na luz.

Agora dorme: o sono é teu aliado. 

15.8.17

Definição

A perfeição é um conjunto de imperfeições que se anulam.

Acreditem se quiserem

Ontem ao jantar tive uma amigável e animada discussão política com um jovem historiador.

O senhor era de esquerda e disse algumas coisas com as quais eu não concordei. Eu não sou de esquerda e - oh espanto - ele não concordava com nada do que eu respondia.

Mas a certa altura da conversa ele disse uma coisa que nos pôs aos dois de acordo: mais valia parar. "Keynes, o pai do neo-liberalismo" disse. Pedi-lhe para repetir, para ter a certeza de ter ouvido bem. Ele reiterou convictamente e confirmou esta estranha opinião: Keynes é o "inventor" (o termo é meu; a ideia não) do neo-liberalismo.

Acreditem se quiserem. É historiador e dá aulas não sei onde.

14.8.17

Há coisas que não se devem guardar nas gavetas

Já aqui contei esta história, mas num contexto e por razões diferentes.

Uma vez a tripulação de um bacalhoeiro amotinou-se contra um capitão particularmente odioso. Pegou nele e pô-lo borda fora. Mas depois hesitou - há uma velhíssima e profundíssima aversão nos homens de mar a deitar pessoas vivas ao mar (o facto de os piratas não respeitarem esta tradição é uma, se bem não a única das razões do meu ódio por eles e por toda a romantização que deles se faz hoje) - e houve ali um compasso de espera. O capitão estava a metro meio de uma água onde sobreviveria dois minutos, talvez três, os homens queriam largá-lo e não conseguiam.

Até que lhes disse: "Ou fora ou dentro, seus filhos da puta, que isto não é lugar para um homem".

Os homens puseram-no dentro, levaram um arraial de pancada do qual alguns restos ainda se devem ouvir hoje nas paragens dos Grandes Bancos e o capitão ficou conhecido, desde esse dia, por Capitão Fora-ou-dentro.

É sempre bom tirar esta história da gaveta da memória onde se acantonou e pô-la a uso.

Adenda: será contudo útil esclarecer que está indecisão à qual tenho ultimamente aludido tem raízes nobres. Não sou um gajo particularmente indeciso - há até quem me tenha chamado de impulsivo, podres (são muitos) de razão -.

13.8.17

Indecisão

Uma má decisão é melhor do que nenhuma decisão. Nunca é de mais ter isto presente quando se nada na indecisão.

Rezas e mezas

É sempre assim: dou por mim a rezar ao deus dos aviões para que o meu esteja atrasado, exactamente com a mesma intensidade com que o vitupero quando está.

Adenda: o senhor ouviu-me. Estou na porta de embarque e tenho muita gente à frente. Aconteceu-me uma coisa que não recordo já tenha acontecido: filtros de segurança totalmente vazios. Zero. Chegar e passar e voltar atrás porque passei o portal a correr e passar outra vez e ecco! Abençoado atraso.

Um dia em Londres telefonei do metro  para o check-in a dizer que estava a caminho, que por favor não o fechassem. Mas isso são coisas que já não sei fazer. E provavelmente ninguém sabe. 

Diário de Bordos - Milano, Itália, 13-08-2017 / II

A ideia era esta: um restaurante barato e simpático (por esta ordem); bom seria um bónus; perto da estação onde vou apanhar o autocarro para o aeroporto; frequentado por locais.

O restaurante Le Chalet corresponde inteiramente a todos os desiderata e vem com o bónus. A decoração tem a ver com o nome; a lista não. O serviço é asiático, não sei de onde. Aliás, até agora só fui servido por senhoras de olhos estreitos e cabelos pretos (ou senhores, mais raramente), com a notável excepção do café Biffi nas Galerias: o empregado era um italiano da idade das pedras que nos rodeavam e tinha a mesma classe.

Que curta foi a passagem por Itália e que pena tenho de não navegar nas Maddalena. Vais voltar, diz o armador. Não acredito, digo eu. Mais uma coisa que fica para a próxima.

Entretanto vou sabendo do que se passa em Charlottesville - pode ser que um dia a malta do politicamente correcto consiga estabelecer relações de causa a efeito, como por exemplo entre o acto sexual e o nascimento de uma criança, apesar do lapso de tempo que separa os dois acontecimentos -.

O almoço termina â hora de ir para o aeroporto, com um Colonel que merece promoção e uma nódoa na T-shirt. Há coisas que não mudam. O mundo reentra nos eixos, as árvores reencaixam no azul do céu, a física das coisas restabelece o seu domínio: o que tem de ser tem muita força; o resto não interessa.

(Não é verdade. Termina um pouco depois da hora de ir para o aeroporto. Pode ser que o avião espere).

Símbolos, reedições e valsas

Falemos de símbolos, daquela sublime valsa do Gattopardo com a herdeira da burguesia. A mais bela rendição da história do cinema e provavelmente da dos símbolos também. Porque penso nessa valsa agora, nesta Milão tão longe da Sicília, com um saco ao ombro que ainda há pouco era leve?

Quis ir ver o Duomo por dentro mas a fila era enorme. Fica para a próxima vez, para a próxima valsa.

Diário de Bordos - Milano, Itália, 13-08-2017

A escolha é simples: entre cinco horas no aeroporto de Milão e três e meia na cidade (e o restante nos autocarros de ida e de volta) escolho ir ver o Duomo e as Galerias Vittorio Emanuelli, onde há muitos anos comi os primeiros gelados italianos feitos em Itália (gelados italianos há-os em todo o lado, claro).

Levei um bilhete de desembarque propre en ordre: nos meus confrontos com a estupidez saio sempre a perder. Não quero com isto dizer que seja inteligente; quero dizer que não sei lidar com a estupidez. A mesquinhez, a falta de coluna vertebral, a falta de lealdade são-me infinitamente mais suportáveis: há muitos anos que espero pouco das pessoas. A justiça ou injustiça da vida são-me indiferentes: perdi a fé numa vida depois desta há ainda mais tempo. O mundo é injusto: eis uma verdade irrefutável, que não se pode mudar excepto na cabeça dos beatos e dos que se equivocaram de planeta. Já a estupidez é diferente: não sei, não saberei nunca lidar com ela. Agride-me e não sei defender-me.

Excepto indo visitar o Duomo de Milano, comer numa Trattoria qualquer ali perto - se bem a minha memória de Milão em Agosto seja de uma vasta cidade fantasma. Alguma coisa encontrarei aberta, antes de voltar para Madrid, em cujo aeroporto me esperam mais não sei quantas horas de espera -.

E regresso a Évora, à mulher que amo, à esperança de um dia encontrar forma de embarcar em amador, simples amador, ir para o mar porque preciso dele e não porque preciso de dinheiro.

........
Milão é a vasta cidade fantasma de que me lembro. E eu pergunto-me se não serei um vasto fantasma que se passeia dentro de mim.

10.8.17

Diário de Bordos - Cannigioni, Sardenha, Itália, 10-08-2017

A comparação é injusta, eu sei. Mas a última vez que isto me aconteceu foi em Moustique faz para ai uns cinco anos: saí de bordo a pensar "que se foda o bote".

Não sei se conhecem Moustique: é uma ilha linda onde músicos como Eric Clapton e Mike Jagger tinham ou têm casas. Estou a inventar os nomes mas não o nível. Tem um bar que é para mim (e mais dez milhões de pessoas) um dos melhores do mundo. Diz a lenda que os Clapton e Jagger desse tempo faziam ali por vezes jams legendárias - o que de resto é adequado à lenda. Que seria de uma lenda sem jams legendárias?)

Uma vez tive um grupo particularmente complicado de clientes. Normalmente Moustique era o meu único momento de descompressão: os clientes iam de excursão ver a casa do Jagger e da Rainha de Inglaterra e quejandos e eu ficava no Basil's a beber Piñas Coladas  (assim mesmo, no plural múltiplo).

Um dia uma delas voltou antecipadamente do passeio, era gorda, feia e estúpida e pediu-me para a levar a bordo. Para além de beber Piñas Coladas eu estava a escrever disparates - as duas coisas estão frequentemente juntas - e respondi-lhe com um simples e lacónico "Não".

Não. Hoje não estou a bordo. Comi as melhores lasagne da minha vida, à qual se seguiu uma sublime costeleta de vitela à Milanesa que só não é a melhor porque não me lembro das anteriores, bebo um excelente vinho local e quero que o bote se foda, se me for permitido falar assim.

Comprei presentes para a minha namorada - ser skipper de uma embarcação de charter não nos transforma imediatamente em selvagens - vim jantar sozinho e feliz apesar da distância que me separa da dita namorada e se alguém agora me pedir alguma coisa a resposta é simples: não.

Não porque sim; há melhor razão para um não?

5.8.17

Analogias de escala

Quando uma coisa está para aquilo que devia ser como uma linha Märklin para um sistema ferroviário nacional.

1.8.17

Charter

Já não me lembrava de como é.  Viver sem ter tempo para viver, ou sequer vida.