8.8.16

É uma viagem portuguesa com certeza

Fui comprar o bilhete à estação de comboios. O senhor confirma-me que sim, posso levar a bicicleta e imprime o bilhete, o qual diz claramente "Permite transporte bicicleta" (verbatim, neste português desprovido de artigos e preposições de que as instituições tanto gostam, vá lá saber-se porquê). Por descargo de consciência pergunto a diferença de preço entre a primeira e a segunda classe. "Seis euros". "Bem, nesse caso quero primeira, se faz favor". "Não pode ser. Com a bicicleta só em segunda".

O comboio chega com quatro minutos de atraso. Não é nem frequente nem grave. Grave é o revisor dizer-me que não posso embarcar a Vitus, que o comboio não tem sítio para ela, que para Sul não há bicicletas no comboio. Digo-lhe que sim mas também e de repente vejo o sinal de Bicicletas no exterior de uma carruagem. Subo e ponho a burra no sítio em menos de um piscar de olhos. Mal acabo chega o picas.

Segue-se uma troca de opiniões e pontos de vista divergentes, que por sorte termina com o comboio a arrancar e a burra nele.

A minha carruagem está cheia a abarrotar e o ar condicionado avariado. Vou ao bar, peço uma cerveja, faço uma piada com a senhora que está antes de mim. O homem do bar é feio como uma caricatura da fealdade. Diz-me que não tem congelador "porque isto é um comboio". Respondo-lhe que trabalho em barcos e temos congelador, mas separamo-nos amigos. Quinze ou vinte minutos depois vou buscar outra cerveja e ele oferece-ma.

Entretanto, depois da rica e animada conversa com o revisor sobre a permanência da bicicleta na "composição" perguntara-lhe quanto custa um suplemento para a primeira classe. "Não pode. Não há lugares vazios".

Depois da segunda cerveja o bar está cheio - há mais carruagens sem ar condicionado -. Vou para a primeira, vejo um lugar vazio, sento-me e faço nele a viagem toda.

Poupei seis euros, fiz um amigo no bar do comboio que prova que quem vê caras não vê corações (ainda por cima o homem parece uma versão feia do Manelito da Mafalda) e demonstrei irrefutavelmente que o P de CP significa Portugal.