24.3.17

Sinónimos

Nunca se deve dizer "vamos então ao que importa" porque isso é como dizer "vamos saltar para aquele vazio".

Um autor francês que escreveu um livro sobre a sedução pergunta (em francês,  claro): "se você tiver duas portas à sua frente, uma disser [talvez] escritório e outra vazio, qual escolhe?"

Para esse autor a sedução é essa segunda porta. Vazio no sentido de abismo, desconhecido, vertigem.

Seduzir alguém seria portanto abrir-lhe a porta do vazio. Do poço. Uma queda sem fim no fim da qual (sou eu o único a ver aqui uma incongruência? ) correm coelhos com relógios e ovos para quem as palavras têm o significado que se lhes quer dar e não o que elas têm de facto.

Luz poderia ser, por exemplo, sinónimo de medo; tarde de amor; sexo de tarde; calor de água, sol, vento, Caraíbas (os significados podem saltar categorias gramaticais, tal como um olhar unir os dois lados de um precipício, se os tiver).

Talvez precipício seja, então, sinónimo de amor.

Riachos

Para começar é tarde; para continuar, tem de dizer-se que o gajo do fato amarelo e do estojo de violino - sabe-se lá com o quê dentro - não era marreco. Podia ser, repare-se. Podia ter uma corcunda interior,  invisível a quase todos os olhos. Ou talvez fosse ao contrário e essa deformação lhe permitisse ver melhor as outras. Nunca saberemos ao certo. É porém uma certeza: as nossas deformações ajudam-nos a ver melhor as dos outros; um pouco como a nossa experiência profissional nos habilita a entender os não-ditos dos nossos interlocutores do mesmo ramo de negócio. Se alguém me disser "para começar é tarde", por exemplo, eu sei perfeitamente o que essa pessoa quer dizer com isso, porque sou um gajo que se deita tarde e acorda igualmente tarde.

Aliás faço tudo tarde, desde a manteiga (com o leite da manhã, mas não fui eu quem ordenhou as vacas) até à por exemplo feijoada (com feijões do ano passado, plantados por mim em plena noite). Quem lesse isto pensaria que vivo no campo, mas tal não é o caso. Puro acaso. Se quisesse contaria uma história como se vivesse a cem quilómetros da cidade mais próxima. Não quero.

Vivo na cidade, a cem quilómetros do campo mais próximo. Isto é mentira. Questão de simetria. Simetria não, que a simetria não mente: um corcunda simétrico é menos inquietante do que um assimétrico. A simetria é um artifício da natureza para nos fazer ver por fora as perfeições interiores. Ou seja: disse que vivia a cem quilómetros do campo mais próximo porque.

Não vivo. Estou a perder-me. Não comprei cadeira nenhuma mas decifrei a loucura. Percebi a essência do amor: consiste basicamente em.

Isto muito resumidamente, claro. Tão pouco faço manteiga e de feijões só conheço as latas. Não vivo na cidade. De qualquer forma sempre gostei de riachos. A minha família tem uma ligação antiga mas vivaz aos riachos. Saltam, fazem barulho e por vezes galgam as margens. É preciso ver nisto uma imagem e uma descrição, como em tudo: acredito na biunivocidade. Na relação profunda e única da forma e do conteúdo. Nas corcundas interiores, por exemplo. Bom. Acredito em tudo e na relação ponto a ponto de tudo com tudo. Acredito na solidão, por exemplo, mas só depois de a relacionar com a existência de outros seres, eventualmente de outros planetas, outras solidões. Não existe solidão se não existir outro. Bom.

Vivo ao lado de um riacho, ao qual cheguei vestido de amarelo, com um estojo de violino vazio. Comprei uma cadeira à minha vizinha. Um dia morri, mas antes disso percebi o terrível mistério da aldeia. Tal é incontrolável o poder do amor.

Por isso me refugiei no estratagema: mais vale amar do que ser amado; qualquer aprendiz de adolescente o sabe. Ser amado é como ser escorraçado da gruta na qual hiberna o leão que está na selva. Quero dizer, vírgula, dois pontos: metaforicamente. Os leões não hibernam. Esperam, demasiadamente.

Bebem a água dos riachos e fazem manteiga com o leite da manhã, toda a gente sabe.

Menos eu, claro.

23.3.17

Regionalização e assimetria

Sendo pela regionalização num plano teórico e dela céptico na prática penso que há uma área de actividade que devia absolutamente ser regionalizada: refiro-me à imprensa televisiva. Em particular à RTP, uma estação de televisão que como todos sabemos está ao serviço do povo.

Imagine-se a abertura do telejornal da região de Miranda do Corvo de hoje: "desembarcou esta manhã  na nossa Vila - à segunda tentativa - da camionete proveniente de Coimbra um estrangeiro. Não tinha um estojo de violino (sabe-se lá com quê) nem vestia um fato amarelo. Se ontem deu nas vistas - mal chegou regressou a Coimbra numa ambulância dos Bombeiros - hoje a chegada processou-se normalmente".

[Seguem-se várias entrevistas de rua a pessoas que foram vistas a interagir com o dito estrangeiro.]

A notícia continuaria - as nossas televisões têm uma certa tendência para fazer render o peixe, porque é mais barato - sem mencionar uma só vez uma assimetria fundamental: é que ao estrangeiro interessa muito mais chegar a Mirando do Corvo do que a esta simpática vila tê-lo cá. Primeiro devido ao seu reduzido poder de compra; e segundo porque a visita será breve: uma semana, talvez duas. Pelo menos por agora. Nada impede que daqui a uns meses a estadia seja mais longa.

"Descoberta do país", "calma para escrever" e "exploração do futuro" foram as três principais razões que o estrangeiro não mencionou a ninguém: todos os interlocutores foram unânimes  [todos e unânimes na mesma oração? Anda aqui regionalização a mais] em apontar a parcimónia de palavras do senhor, só compensada pela sua extrema jovialidade.

[Ou seja, o gajo fala muito mas não diz nada.]

21.3.17

Dia internacional da poesia

A ideia de que no dia internacional da poesia começa uma etapa poética da sua vida é em si mesma poética.  Ele é reconhecidamente um péssimo poeta, excepto se se considerar que um dia pode ser um verso, uma hora uma vírgula e a manhã, tarde, noite, madrugada estrofes.

Ainda assim o poema seria mau, suspeito (tenho fortes razões para isso, aliás). Mas talvez fosse menos mau. Talvez se pudesse considerar, sendo a vida um poema, que é um poema sem fim - a morte seria, a ser assim, apenas uma repetição (um replay, diríamos há alguns anos) uma repetição silenciosa e estática do poema da vida de cada um -.

Imagine-se um poema que começasse por "um marinheiro mete-se pela terra adentro". Qualquer pessoa de bom senso interromperia a leitura ali, logo ali, no coloquialismo "adentro", como se o navio do marinheiro tivesse batido numa baleia adormecida (isto é um pleonasmo. Se a baleia estivesse acordada a embarcação não lhe bateria).

Deixemo-nos de pormenores técnicos. Um marinheiro mete-se pela terra adentro, poeticamente. Pelo menos parece-lhe e como o faz no dia da poesia deve ser.

- Como classificar este tipo de poesia?
- Poesia da vida, poesia dos dias,  poesia da acção, poesia dos caminhos de ferro (expressão que o autor / vivente prefere a comboio)?

Pouco importa, na verdade. É impossível ler esta poesia: vista de fora é como se lhe faltassem dois terços  (pelo menos) dos caracteres.

Espera. Estou a dispersar-me. O poema faz sentido, mas tu não o podes ler. Pouco interessa: um marinheiro escreve um poema sentado num comboio não porque o esteja a escrever mas porque o está a fazer. A viver. A construir. O ritmo é-lhe dado pelo ruído dos boogies. O marinheiro transforma-se em hobo, esses seres que tanto o fizeram sonhar numa fase anterior, já antiga do poema.

O marinheiro não sabe o que o espera, mas isso não o inquieta: está habituado a escrever os poemas linha a linha, verso a verso, palavra a palavra, sem lhes contar as sílabas ou se preocupar com as rimas.

É assim. No Dia Internacional da Poesia um novo poema começa a escrever-se. Poético, não? Mais - pelo menos - do que ler poemas já escritos por poetas que morreram sem perceber o principal poema, isto é: a vida.

A vida, o cheiro a sangue vomitado, o ritmo dos boogies nos carris e os hobos, esses poetas desconhecidos.

E os marinheiros, naturalmente. As mamas, os ventres e os olhares com os quais o marinheiro - ou nos quais? Nos - o marinheiro vai viver o poema, escrevendo-o para quem nunca o conseguirá ler.

No Dia Internacional da Poesia um poema começa, terra adentro, corpo adentro, futuro adentro.

Diferença de idades

Na cama ao lado da minha - a um metro, um metro e meio - está o senhor Marcelino (o nome foi alterado. Entre os milhões de leitores do DV talvez haja que o conheça).

- O senhor Marcelino está com muito bom aspecto. Vive com quem? - pergunta-lhe Rosa (ditto), a simpatiquíssima e eficaz enfermeira.
- Ora! Com a minha mulher, pois então?
- E que idade tem ela?
- Oitenta anos. É dez anos mais nova do que eu.

20.3.17

Pequeno sermão interno

Há entre mim e aquele conjunto de órgãos desajeitados e exigentes a que à falta de melhor chamamos corpo um guerra aberta, acesa, por vezes violenta.

É uma guerra desigual: todos sabemos quem vai ganhar. Mas enquanto essa vitória não chegar, os resultados intermédios variam: eles ganham às vezes e perdem outras.

Ontem um deles - aliado a vários outros, é preciso dizê-lo - ganhou e mandou-me para o hospital.

Tive assim mais uma oportunidade de contactar o nosso serviço nacional de saúde.  Dado que a última vez foi em Junho do ano passado é de começar a ficar chateado com os filhos da mãe dos órgãos que - seja com a desculpa da idade seja com a dos maus tratos a que foram submetidos - prevaricam tão frequentemente.

Vou ceder um pouco - estar doente é coisa de ricos e eu estou longe de o ser -, mas espero que não se habituem. É que se pensam que estarem vivos chega estão muito enganados. Têm de trabalhar para isso, como toda a gente.

Doenças e pobreza

Pobre e doente estão frequentemente associados. É mais uma prova de que os pobres não têm juízo. Para um pobre estar doente é uma irresponsabilidade. Doença é coisa de ricos.

19.3.17

Lasciva e lânguida Lisboa

Oh luminosa Lisboa, és uma cabra. Quem não te conhecer que te compre, que aos íntimos ofereces-te lasciva e lânguida, puta púdica.

18.3.17

Lisboa, dois mil e dezassete

Foi assim. Eu vinha no metro, linha Verde para Sul. Uma voz mecânica, gravada, dizia as estações: "Próxima estação Alameda. Há correspondência com a linha Vermelha" (não sabem dizer "Encarnada", coitados). "Próxima estação Arroios". E por aí fora. Conhecem a linha.

Antes do Martim Moniz a voz anunciou: "Próxima estação Martim Moniz. Há correspondência com o resto do mundo".

Aposto que não fui eu o único a ouvir.

Soou-me um bocado exagerado. Afinal a festa era "Bollywood". Mas quando saí percebi que quem quer que tenha mudado aquilo estava prenhe de razão. 

17.3.17

Triângulos de éter

Como todas as coisas boas da vida a ginginha Sem Rival, sita à rua das portas de Santo Antão em Lisboa deve ser consumida aos pares. Isto é. Enfim. Esta frase merecia uma clarificação, uma separação da loja e do produto que é vendido na loja. Um exemplo: pensemos em todas as coisas boas que vêm aos pares e nas que não vêm. Isso, exactamente. A ginginha Sem Rival deve ser bebida aos pares, mas com UMA SÓ GINGINHA em cada copo. Isto vai em maiúsculas porque é importante.

Uma espécie de triângulo etéreo. 

Alice e os desertos

Saí de casa a pensar que ia rever Alice nas Cidades, mas afinal fui vê-lo.

O filme envelheceu terrivelmente no acessório e mantém-se actual no essencial: um homem vazio só percorre desertos; o mundo só se enche quando o viajante se enche.

Que esse milagre tenha sido conseguido por uma miúda de nove anos só torna o filme mais belo.

16.3.17

Diário de Bordos - Lisboa, 15-03-2017

Hoje fui jantar a casa de uma senhora por quem tenho uma admiração infinita. Enfim, uma mistura de admiração e gratidão, irresistível. Infinitas ambas mai-la mistura das duas. Não pus o dedo no nariz e só o pus na boca muito depressa, tinha um bocado de carne entre dentes e em vez de educadamente me levantar e perguntar onde é a casa de banho e mal chegado ao corredor enfiar o indicador e escarafunchar os dentes todos fui directa e disfarçadamente ao assunto. Acho que ninguém viu e acho que talvez seja altura de começar a variar as minhas fontes de adrenalina.

Enfim, nada disto seria verdade, claro, se eu quisesse; excepto a parte do jantar e da senhora que partilha comigo o gosto dos contos do Salinger (que ambos preferimos ao Catcher in the Rye, é suficientemente raro para ser assinalado; e ambos gostamos de um livro de Albert Cohen chamado Le Livre de ma Mère, que de resto ela traduziu para português e eu vou ler essa tradução porque preciso desesperadamente de começar a acreditar nas traduções portuguesas).

Foi um jantar tão bom porque me fez sentir vivo. Não sei como explicar isto sem ser piegas ou parecer maricas, mas é isso. Foi um jantar bom. E partilhamos também uma veneração por um livro chamado A Curva do Rio, em português e A Bend in the River no original inglês, um livro sem o qual não se pode entender África, apesar de ser sobre o Congo, só (o rio é o Zaire e a cidade Kisangani, onde nunca estive. Mas estive em Kindu, mais para sul no mesmo rio).

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Depois fui a uma discoteca abominável. Fui não é adequado como verbo: entrei e saí aproximadamente um minuto depois. Há pessoas que gostam daquela mistura de muita gente, música muito alta, paredes negras e espelhos. Borges dizia que os espelhos e a fornicação deviam ser proibidos (porque aumentam o número de seres humanos), mas o que me ocorreu foi a discoteca toda branca onde há duzentos e cinquenta anos estive em Amsterdam e daí lembrei-me de Baruch, o velho Baruch: "nada em si mesmo é bom ou mau, tudo depende do que os homens fazem das coisas" (entre aspas mas a citação não é literal).

Nada em si mesmo é bom ou mau? Porra, quanto não pagaria eu para ver qualquer coisa boa naquele lugar?

"Não faço parte desse grupo" (dos que gostam de discotecas e boîtes)" dizia. E nem sequer tenho pena, não é? Não gosto. Já gostei. Enfim, não sei. Gostava duma discoteca que havia perto de Setúbal à qual ia de barco e que ardeu, era de madeira. Dessa sim, gostava. E daquela toda branca em Amsterdam. Nada em si mesmo é bom ou mau.

Quando era puto ia ao dois mil, claro. Já não sou, Allah uAqbar. Inch'Allah. Oxalá.

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Que mais? Leio Vila-Matas, outra vez (mas o livro é diferente, vá lá); folheio Le Clézio, um dos que trouxe de Genève. Penso no Vieux Dégueulasse de Reiser. Que pena não ser mais conhecido em Portugal, não é?  "Toutes des putains, sauf maman". Pelo menos poderia ser comparado a um gajo verdadeiramente nojento, se fosse apanhado a pôr os dedos no nariz ou a dar puns à mesa.

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Há pessoas que sabem o que querem e eu sinto-me verdadeiramente feliz por elas. Não faço parte desse grupo, mas já estou mais perto: sei o que não quero.

Ser infeliz, por exemplo. Ninguém quer, claro. Enfim, uma coisa sei que quero: uma casa para os meus livros. O primeiro livro do autor do Bend on the River chama-se Uma Casa para Mr Biswas. Muito esperou o senhor Biswas pela casa dele. Eu também posso esperar. Espero.

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Que mais? Uma coisa boa dos espelhos: os caleidoscópios. Uma coisa boa da fornicação: o amor, por breve e ténue que seja. Ou a esperança, vá. 

15.3.17

Palavras, vagas

As palavras vinham morrer no areal, vagas e enroladas como miúdas tímidas.

Vagas desempenha aqui um papel fundamental, ambíguo.  Qualquer pessoa percebe: vagas de palavras vagas, vagas enroladas em si próprias, vagas tímidas de miúdas enroladas, vagas. Como divagas, como devagar, como há vagas na vida?

Há: tantas como os grãos de areia nos quais as vagas vêm morrer, leves e rendidas. As palavras, quero dizer.

Produtividade, desespero

A conversa era sobre a sesta; ou, melhor dizendo, a problemática da sesta. Coisa complicada e que não se resolve de um dia para o outro. Os intervenientes Milan Kundera e Marguerite Yourcenar. A Insustentável Leveza do Ser e o Livro do Riso e do Esquecimento contra a Obra ao Negro e as Memórias.

Marguerite ganha por dentro o que Milan descreve por fora. Quem perde é a sesta: em breve será noite. Ou seja,  demasiado tarde para um sono post-prandial e cedo para um pré-prandial.

O aspirante a sestador (assustador neologismo) sabe que vai ter de se levantar como Adriano sabia que ia morrer e Tomás que o destino tem muita força, sobretudo quando somos nós que o escolhemos.

A sesta vai ter de esperar. Um chorrilho de palavras substituí-la-á: dissolve-se em verbos e substantivos. Já em adjectivos é mais complicado.

Saber esperar é mais fácil do que saber desesperar, mas menos produtivo.

(Para a R., com gratidão).

14.3.17

Fátima - I

Vamos ao que interessa: quem se atirou primeiro foi ela. De certa forma percebo-a: a noite estava chata como um jantar sem sedução. A analogia é fraca: era um jantar de casais; as mulheres há muito perderam a vontade de seduzir fosse quem fosse e os homens eram demasiado estúpidos ou estavam cansados de mais para falar doutra coisa que não fosse futebol.

Ou seja: fui, uma vez mais, vítima inocente do meu desdém pela bola e da minhas incapacidades diversas: conversar, misturar-me, ser como toda a gente. Vamos chamar-lhe Fátima, é um nome bonito que justifica peregrinações.

As minhas obrigações - auto-impostas - consistiam em dizer à Isabel (a dona da casa) que o jantar estava óptimo (meia mentira), responder vagamente a quem me perguntava onde vivo ou o que faço e esperar sem impaciência que o tormento acabasse.

Quem atacou foi ela. Magra - demasiado magra, pareceu-me - mamas grandes, casada com um rapaz simpático e palerma que dá aulas num liceu qualquer e vota PS porque o cachorro votaria também, se votasse. Há muito tempo que deixei de responder aos ataques de gajas chateadas com a vida, mas havia ali uma série de combinações às quais não fui treinado para resistir.

Que se fodam os antecedentes. Estávamos num jantar chato como uma mulher sem mamas, quatro ou cinco casais todos iguais e transparentes e eu. Uma das senhoras atirou-se a mim. Em princípio não deveria sequer ter notado, mas ela tornou aquilo impossível: posso resistir a tudo menos à uma miúda magra de mamas grandes, sorriso aberto como um hospital ou um bordel, inteligência acima da média e sentido de humor em forma daqueles cilindros que antigamente víamos a trabalhar no alcatroamento das ruas.

Não sei dizer não a uma mulher que me diz sim (verdade seja dita às outras não é preciso dizer nada). Fátima era um sim gritado da ponta dos cabelos à dos pés. Isto é.

Fátima era um pedido de socorro de um metro e sessenta e cinco e eu ajudei-a, é tudo.

(Cont.)

Notas dispersas - PSEC (e simplificação)

O PSEC - Processo de Sedentarização em Curso - não é fácil. É difícil, complexo, complicado, cheio de altos e baixos e curvas e contracurvas, estreitos apertados e gargantas profundas.

Uma cabeça de pescada na Merendinha do Arco alisa e descomplexifica o processo. Por pouco tempo, é certo. A conta chega e um indivíduo em processo de sedentarização pergunta-se "Porra! Isto é tão barato e ainda assim é caro?"

Ou seja: sedentarizar é trocar uma vida em que se finge que se é rico às vezes e pobre quase sempre por outra em que se é sempre pobre, sem fingir.

Sem fingir.

ADENDA - Comer uma cabeça de pescada (ou de outro peixe qualquer) funciona como descomplicador de vidas por transferência de complexidades. Requer atenção em todas as fases do processo, desde a recolha do que se vai pôr no garfo - acto que para ser bem sucedido deve ser minucioso e lento, executado com a atenção e a expectativa de um garimpeiro - até à degustação. A carne da cabeça do peixe é de muito longe a melhor e é firme. Separa-se em pequenas e sólidas pepitas de gosto, textura e - sim - simplificação que se fruem pondo de lado tudo o que possa interferir. Isto é: o corpo reduz-se a um conjunto de pailas gustativas.

No meu caso autorizo sempre uma ligeira intrusão da memória: a de ir com o meu Pai e um colega dele ao mercado 31 de Janeiro às - penso, mas não tenho a certeza e de qualquer forma pouco importa - quintas-feiras comer uma cabeça que o senhor do restaurante seleccionava e punha de lado para nós. Era o dia do Little Sheraton e era maravilhoso; por isso esta memória - mas só esta - é autorizada cada vez que como uma cabeça de peixe cozida com maestria e amor (como de resto tudo o que é feito na Merendinha do Arco, laudas sejam cantadas ao senhor David e à senhora da cozinha, cujo nome desconheço mas merece um stock de velas na Igreja de S. Domingos).