21.11.17

Censura e homens do lixo

Propuseram-me um trabalho de censor - pomposamente apelidado de "gestor de conteúdos" - por quinhentos e sessenta e cinco euros por mês, seis euros e trinta de subsídio de refeição "em cartão" como no Continente e "até quarenta euros" de subsídio de transporte "contra factura".

Era preciso ter "uma personalidade forte" para resistir aos conteúdos "racistas, homofóbicos, machistas. Ou então florzinhas e fotografias de gatinhos".

Não deixei a senhora acabar: mal disse o salário levantei-me e disse-lhe que não valia a pena perdermos o nosso respectivo tempo.

Censurar os outros é um trabalho desprezível; pagar mal para o fazer é como pagar mal aos homens do lixo.

Isto não é uma jeremíada

Não é que esteja a queixar-me. Não estou, juro. Mas ficaria muito mais descansado se me garantissem que não há vida depois da morte ou que, quando for desta para melhor vou mesmo para melhor e não reencarnar num diplomata, presidente de banco ou jogador de hóquei em patins. 

20.11.17

Bulimia e caos

Imagens díspares que se atrapalham (ou será atropelam?) mutuamente: infortúnio, abrir uma porta com a chave depois de tocar a campainha, pôr-do-Sol no campo, um passeio de mota à beira-rio, um quarto frio no qual uma personagem solitária tenta escrever e tapar-se ao mesmo tempo, a esperança, um diálogo num carro entre duas pessoas que acabam de se conhecer, uma lavandaria self-serviço onde às três de manhã um casal discute. Podia tentar ordená-las cronologicamente, por ordem alfabética ou por ordem crescente da quantidade de letras de cada uma, de tempo que se lhe mantêm no espírito antes de ser substituídas pela seguinte. Ou talvez arrumá-las por pessoa que lhes está na origem: A. e J. na lavandaria, por exemplo (começa mal: a imagem da lavandaria não se baseia em factos reais, mas sim possíveis). T. no automóvel a caminho de Sintra, onde vamos passar a nossa primeira noite juntos; T. e o infortúnio.

Nada disto funciona. A única maneira de lhes dar ordem ou forma é escrever-las num quarto gélido, à noite, sozinho enquanto tento pensar em A., B., C. e não pensar em T., U., V.

Parece difícil mas não é: uma vez escritas a ordem regressa. Escolho uma ao acaso: a discussão entre dois amantes numa lavandaria self-service às três de manhã, por exemplo. Pouco importa que só exista na minha imaginação: a partir dela posso construir uma cadeia de imagens igualmente fictícias, mais ou menos verosímeis. Uma das pessoas do casal tem um gelado na mão. Às três da manhã um gelado? Deve ser Verão e eles devem estar perto de casa.

O frio quase desaparece, a personagem que escreve deixa de estar sozinha, da atrapalhação nasceu uma certa ordem, um sonho de ordem.

A ordem da ficção é omnívora e bulímica e tão parecida com o caos que quase se confundem. 

19.11.17

Sintomas, distâncias

Tudo é sintoma de qualquer coisa. Tudo: este beijo que te quero dar, tão longe; esta noite fria e sem luz, sem lua, sem gente.

Sintomas, sem dúvida, mas não sei de quê, de que anomalia, de que cansaço.

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(Cansaço rima com abraço; mas como preencher o que lhes fica entre?)
(É tão curta a distância entre abraço e cansaço, não é?)
(Há um mundo sem fundo, uma distância sem importância.)
(Depende de quem é o abraço - teu ou meu? - e o cansaço.)

Onomatopaicas

"Quero mostrar-te as onomatopaicas do amor", diz o apaixonado pelas palavras. "Antes que me esqueças de vez. Ou eu ensurdeça. Ou emudeça. Ou nos esqueçamos um do outro, de tão silencioso foi o nosso amor".

Domínio da língua?

Não gosto da expressão  "domínio da língua". Primeiro porque ninguém domina uma língua e depois porque língua que se deixa dominar não merece ser falada, escrita ou sequer respeitada.

Poesias

"Poesia pura" escreveu alguém na parede. Poesia dura, responde o meu pénis porque penso em ti.

18.11.17

Um dia não me lembrarei de ti

Um dia assim: começa cheio de barulho e acaba bem, a escrever-te a mão, a pele ali onde ela é mais fina, mais leve, sorridente, quase transparente, como se me quisesses dentro dela, dentro de ti, como se me abrisses a porta antes de me abrires a porta.

...

Não consigo não pensar em ti. Isto é: não consigo não me lembrar de ti. Esquecer-te já te esqueci há muito tempo, mas continuo a lembrar-te: esquecemos mais depressa o que se fez depressa e mais devagar o que se fez devagar, não é?

17.11.17

Diário de Bordos - Lisboa, 17-11-2017

Eu gostaria que daqui não se inferissem coisas que daqui não se podem inferir, mas parece-me irrefutável: só há dois tipos de estabelecimentos em que as funcionárias são todas e sempre bonitas - os bares e as bibliotecas. E quando não são parecem -.

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Coisas que explicam porque amamos e detestamos Portugal simultaneamente e é impossível ser doutra maneira: vou de bicicleta da estação para o hospital de Cascais. A menos de quinhentos metros do dito aparece-me uma autoestrada - com sinal de proibição de velocípedes e outros veículos de tracção animal e tudo -; procuro alternativas, não as encontro mas vejo que pouco à frente volta a ser uma estrada normal e ooops, toda a força avante. Quase a sair do (curtíssimo) trecho de autoestrada oiço as sirenes de um carro de polícia, que me diz para encostar. Antes de poderem sequer abrir a boca desfio-lhes a ladainha (aparecem-me num instante, seja Deus louvado, sobretudo quando coincidem ponto por ponto com a verdade): que vou para o hospital, que a consulta é já dali a bocadinho, que procurei alternativas, que por aí fora, tudo isto num fôlego só e sem dar oportunidade aos senhores agentes de fazer outra coisa se não ouvir.

Quando acabo os homens dizem-me "Bom, você vai para o hospital? Ponha-se aí à nossa frente" e escoltam-me até à saída. Lá chegados eu estou a derreter de agradecimentos e de pensar "isto é incrível! Que simpáticos!" e um deles pergunta-me "Vai para as urgências?" "Não. Vou, para as consultas normais". "Ok, então vá que lá estará um colega nosso para lhe pedir a identificação". Comecei a ver a vida a andar para trás e a carteira tão vazia a esvaziar-se ainda mais, claro.

Isso é esquecer que estamos em Portugal, graças sejam dadas à Santíssima Virgem de Fátima. Passei mais de uma hora no hospital e não vi nem a sombra de um polícia.

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Em contrapartida vi que a porcaria do cotovelo não vai voltar ao sítio assim tão depressa ou facilmente como tenho vindo a pensar, coisa que me aborrece um bocadinho, por assim dizer.

Serviço público - Restaurantes Cascais (não ler)

Por muito que se goste da mudança ou se pense que ela é inevitável - je mange à ces deux rateliers - é bom voltar a certos sítios e ver que não mudaram. (Ainda, acrescenta o realista que dorme em mim e acordou sobressaltado).

Refiro-me concretamente ao restaurante Melody, em Cascais. Era de muito o longe o melhor restaurante de Cascais nas categorias Tesos e Gajos que Sabem (duas categorias distintas, claro). Hoje, muitos anos passados voltei cá e verifico com prazer que não sei se ainda é o melhor; mas que continua muito bom continua.

Se tiver uma página no Trip Advisor por favor digam o pior possível do restaurante; se houver uma página para restaurantes do Sporting digam que o dono é patologicamente do Benfica (esta tem a vantagem sobre a outra de ser verdade). O senhor tem trabalho que chegue e as mesas são poucas.

Hallelujah.

16.11.17

Palavras atrás das outras, umas

As palavras já quase nem palavras são, de tão pálidas; é assim que gosto delas: nem sombras do que foram são. Vão para ti em fila indiana, silenciosas e graves.

Graves a fingir, claro: no caminho aligeiram-se, esquecem-se de mim, de onde vêm, do que seriam se não fosse para ti que se dirigem.

Noite, dia

Sim, é isto. Nada mais do que isto: os deuses reservaram para o dia uma beleza e outra para a noite, diferente. Gémeas dizigóticas: clara e límpida uma, outra escura e densa.

15.11.17

Sentir

O concerto acaba e um gajo pensa "esta música foi tão bonita" e logo a seguir diz-se "bonita não é o termo" mas já usou "urgente" e não quer repetir-se de maneira conforma-se à falta de palavras, como se a música lhe aspirasse o léxico mas não os sentimentos; o que os faz ficar coxos.

Mas dizer que se ouve isto e se fica com sentimentos coxos é pior do que uma infinita injustiça: é inexacto, é muito pior.

Talvez. Há o Tati, o Logradouro onde se come mal mas é bonito p'ra burro  (o Tati é bonito e come-se bem) e o Irreal onde não se come de todo. Une-os a música? Mais os sentimentos.

Quero dizer: não que eu seja uma mala de mariquices que qualquer sax alto rapta. Nada disso. É só que isto é bom de mais e eu sou forçado a pensar, coisa que não gosto de fazer. Pensar é muito cansativo. Quase tanto como sentir.

Urgências

Música urgente no Irreal. Lisboa é uma cidade urgente, cada vez mais.

Sax alto, piano e bateria. Não sei o nome do grupo mas devia.  Um gajo nunca sabe quando terá uma urgência como esta. Um dia que começou de urgência num hospital (porque acordei tarde) acaba numa urgência no Irreal. Não sei como dizer isto melhor. É preciso estar aqui, urgentemente.

Há uma beleza na urgência que só as vítimas da urgência podem perceber.

Deslizar, Lisboa

Vivo esta cidade como se em vez de ser eu a pedalar-lhe as ruas fosse ela a deslizar-me por baixo.

Noite?

Há uma espécie de noite à frente: como chamar noite a uma noite da qual tu estás ausente?

Cair, corda bamba

Como dizer que te amo sem dizer que te amo? A arte da elipse é complexa: um olhar pode pôr um pé na porta que o pé impede de fechar; a mão no ombro pode impedi-lo de se afastar e empurrá-lo para longe da mão. Mais vale não dizer nada: as palavras têm uma irreprimível tendência para descambar. Melhor caminhar na corda bamba: não sabemos para que lado vamos cair. Só sabemos que cairemos, mais tarde ou mais cedo.

Para que lado só os deuses o sabem.

Diário de Bordos - Lisboa, 15-11-2017

Nâo sei como dizer isto: cheguei ao hospital e menos de meia hora depois estava a pedalar de regresso àquilo que agora me serve de casa (quase perfeitamente, aliás. Só me faltam os livros). Não vou nem queixar-me nem revelar o segredo (não começa por C). Limito-me a registar o facto, com indisfarçável prazer e uma certa nostalgia: já passei muito tempo naquele hospital (algum do qual graças à senhora C) e por mais que me chateie lá ter de voltar é sempre bom ver que tudo funciona.

Se não de resto de resto tudo bem: uma pequena urgência que se resolveu with a little help from my friends; mais uma perspectiva de futuro - é inacredtável a quantidade de portas que o futuro tem abertas versus as que o presente tem fechadas, mas isso é outra história. Basta viver no futuro e tudo se resolve -;  e por aí fora, que a estrada é longa, a página não tem fim e daqui a pouco vou sair, ouvir música.

Talvez. Não sei. Não sei nada, nunca, todos os dias. À croire que je ne veux pas savoir. Não quero, verdade seja dita. O que não sei satisfaz-me perfeitamente: é mais do que o que sei, é uma piscina maior. Nadar por nadar prefiro nadar no que desconheço. 

Amigos, família e café

A vantagem da amizade sobre a família é ser voluntária. A família cai-nos do céu - ou do inferno  - e os amigos vêm beber um copo connosco ao café.

14.11.17

À bicyclette

Vim de bicicleta de Belém ao Parque das Nações. É um passeio bonito. Já não o fazia há algum tempo. De carro é chato, parece que nunca mais acaba. De bicicleta está sempre a começar. A cada pedalada o cenário muda: Belém,  Alcântara, a chatice do Cais do Sodré, o Cais das Colunas, Sta. Apolónia, o porto todo desde aí até ao Parque: Marvila, Beato, Xabregas (não sei se a ordem está correcta). Lembrei-me daquele argumento da APL para fazer a aberração do terminal de contentores em Alcântara : "Lisboa precisa de um porto".  Temos quilómetros de porto, graças a Deus.

Viemos a pedalar o caminho todo, o N. e eu, nem muito depressa nem muito devagar. É um passeio fácil, plano, bom neste dia tão bonito, cálido, morno, antecâmara de outros dias iguais ou melhores..  

Lisboa

"Lisboa menina e moça"? Não me parece. Acho-a mais puta velha e sabida, que resiste a tudo e todos, seja chulos seja doenças venéreas, tremores de terra ou Medinas, vendedores de louro ou "tours gourmet-históricos".

Diário de Bordos - Lisboa, 14-11-2017

Hoje a greve dos médicos não me correu tão bem como da outra vez: levantei-me às sete da manhã para chegar ao hospital e ouvir dizer que "a técnica está de greve". Troquei uma chalaça ou duas com a senhora do guichê, que apesar da hora matinal já devia ter lidado com alguns mais zangados e me agradeceu dizendo "assim é que se deve levar a coisa".

Se ela soubesse a vontade que tenho de mandar o corpo às urtigas e dizer-lhe "amanha-te com o que a natureza te deu"... Mas depois lembro-me de que ainda tenho dois ou três disparates a escrever e (espero) um corpo para amar e meia dúzia de garrafas de vinho a beber e uma ou duas ilhas a visitar e pronto. A senhora vai avisar-me da nova data.

Não vai chegar a tempo para a médica que pediu o exame, mas esta que se amanhe com o que há, ela também.

Estou mais farto de médicos, hospitais, comprimidos e exames do que de mim. É obra!

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Ontem falava com F., o dono do hostel e imaginava a sorte que ele talvez tenha. Não fala português e pode não saber quem é o Costa, não fazer ideia de onde fica o Panteão, ignorar que pode morrer se for a um hospital de Lisboa. Ou seja: ter de Portugal o melhor, este ar frio e transparente, cheio de sol dos últimos dias, a simpatia das pessoas, a beleza da cidade.

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Parece que o Marcelo anda a distribuir afectos pelos sem-abrigo. Acho bem: há que começar a tratar já da reeleição e dar palmadinhas nas costas aos senhores e senhoras das ruas é um método garantido.

Se o próximo presidente vier do circo pelo menos já estaremos habituados.

Entretanto cinco meses depois Pedrógão Grande está como ficou depois do fogo e quanto a isso népias. Nem uma palavra. Quem lhe esfregasse uma selfie nas ventas devia ser condecorado.

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Esta indiferença dos portugueses pelo tempo seria muito bonita e exótica se fosse noutro país. No nosso é dolorosa.

Quem?

Não é disto que quero falar. É do nada. Isto é: da vertigem na qual nos enterrámos quando nos sabíamos espiados pelo  nada. O dia em que não choraste, pela primeira vez. O dia em que decidi fazer meia volta. O primeiro dia em que não me mentiste. A primeira vez que te fui fiel. Imagens caleidoscópicas, nada revolto, peles enregeladas, lágrimas vazias.
- Porque me contas isso?
- Porque se eu não te contar quem to contará?  

Assim, sim

Assim as coisas se iam passando; mas nós não decidimos que elas se passariam assim. Elas sim.

13.11.17

Rio abaixo, acima

Questão de deuses e nuvens nas quais se escondem; corpos frágeis hesitam em subir até eles. Há muito que fazer cá em baixo, dizem-se, sussurram-se. Em voz baixa para não os acordar, em voz baixa porque têm medo de se ouvir a si próprios: as palavras sobem por escadas em caracol, batem pesadamente com os pés e quando são ouvidas parecem o grito de uma multidão num estádio de futebol. Há que dizê-las baixo, não acordar os deuses, não afastar as nuvens.

Estendamos um manto de silêncio e sobre ele estendamo-nos nós, calados. Respiremos juntos, síncronos, como se de um os pulmões fossem dos dois. Olhemo-nos: é uma forma de nos escondermos. Toquemo-nos: timidamente, para não nos ferirmos.

Há que trocar feridas: as minhas pelas tuas; tempos: o meu pelo teu. Esvaiamo-nos devagar, deixemo-nos ir corrente abaixo: seixos, árvores, praias, olhos, mãos que nos acenam hesitantes. Não sabem se devem regozijar-se se entristecer-se. As páginas dissolvem-se uma a uma: tu a frente eu o verso, eu o verso tu a frente. Somos duas páginas de uma folha, mas juntos fazemos um livro que  agora parte, devagar, rio acima para as nuvens, rio abaixo para a terra.

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Hoje vi o anjo Gabriel. Era muito novo e loiro. Estava com a mãe, morena e pequena. Perguntei-me que lhe terá dito que ela não saiba já? Olhei-a de novo e percebi: tudo. Nada sabemos, enquanto não ouvirmos o que um anjo feito por nós tem para nos ensinar.

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É de mistérios que convem falar. O que sabemos vale pouco. Imagina uma espiral à tua frente, desenhada por uma espada em fogo. Quem segura a espada? Quem o ensinou a desenhar no ar espirais que duram uma vida?

Todas duram, pelo menos as que são dignas desse nome: espiral é um termo nobre que designa a distância mais curta entre o que és hoje e o que sempre quiseste ser. Essa espiral é iluminada pelas chispas brancas de que ontem te falava uma fotografia de cavalos alados, desejos claros, mediterrânicos, pedras iluminadas pelo sol poente. É disso que se trata: nuvens, deuses, murmúrios sem fim nem princípio, luz. Mistérios, abismos. No quarto ao lamediterrânicas en canta - em pessoa - Hallelujah. "You don't really care for music, do you?"

Yes you do.

Havia outra: "your pain is no credential here". Avalanche. Sabíamo-las todas de cor, não era? Cantávamo-las nos intervalos do sangue que escorria pelas ruas, pelas falésias e acabávamos a dizermo-nos "That's no way to say goodbye". Todos os dias nos dizíamos adeus; mais tarde ou mais cedo aprenderíamos, não é?

Não. Nunca se aprende a descer esse longo rio em espiral para o qual olham os deuses refastelados e inúteis.

Louvor e simplificação do SNS, bis

Faço elogios desabridos ao meu médico de família e por extensão (ou por sinédoque, para os meus colegas de pedantismo) ao SNS.

Errado. O meu querido médico não é o SNS e o SNS não se reduz ao Dr. J. R. Há mais de duas semanas que esperava uma consulta no hospital de Cascais. Primeiro ponto: telefono e respondem-me imediatamente. Segundo: explico ao senhor que me atendeu o que me leva a telefonar-lhe. Ele ouve-me com toda a paciência do mundo (é preciso muita, eu conheço-me) e no fim pergunta-me o nome. (Tecla. Oiço o barulho das teclas. O senhor deu provas de um auto-domínio notável) e sem me passar a duzentos outros números, todos eles ou ocupados ou surdos diz-me:
- O senhor Luís está à espera da triagem. - Passo por cima do desgosto que tenho em ser tratado por senhor Luís. A culpa não é dele.
- Imagino perfeitamente que estou à espera de qualquer coisa. Mas talvez tenha percebido que a razão deste telefone é exactamente eu não querer esperar mais. Já esperei o suficiente.
- Pois, mas...
- Não é nem pois nem mas. Estou a perder o uso do braço direito (não é infelizmente um grande exagero. É só uma pequeníssima hipérbole).

Passo o resto do diálogo. Foi breve. Consulta sexta-feira feira que vem de manhã.

Espera, o que é que estava a dizer sobre o SNS? Agora de repente escapa-me.

Conversas e assim

Estou no Logradouro e pergunto-me: "como arrancar-me de uma cidade que tem o café Tati e o Logradouro  (e tudo o que fica entre eles)"?

Palma tem a Babel e o Antiquari. Mas Lisboa tem o rio e a Ler Devagar.

Falso debate, claro: "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja" (J. Baldwin). O resto não passa de conversas e assim.

Adenda: a música vem de LP e não de CD ou pens ou icoisos. O hoummus não vale nenhum mas gosto tanto do sítio que me propus trazer-lhe um bocadinho, mai-la receita. 

Oiça uma ideia, eu lhe dou de graça

Uma ideia para o salário dos políticos quando chegam ao governo: primeiro ano recebem zero. Trabalham pro bono e mostram o que valem; anos seguintes recebem em função de uma combinação de variáveis - PIB, dívida externa, défice, etc. Uma fórmula, por assim dizer -. os que forem reeleitos começam o novo ciclo com o valor anterior, que será aumentado ou diminuido em função da variação do resultado da fórmula. Os que quando saírem tiverem o salário a zeros outra vez não poderão trabalhar em empresas públicas.

12.11.17

Como se um rio

Como se fosse eu a nascente e tu a foz de um rio assim te quero; como se na sesta sem ti a sesta não fosse, rio sem foz, rio sem margens, mar sem rios. Não há frio que uma pele não cubra, rio que um mar não salve, mão que uma sede não apague.

Como se de um rio fosse eu a nascente e tu a foz.