26.5.18

Bares, Lua

Os únicos bares aceitáveis são aqueles de onde se vê a Lua.

A noite e o bom senso

Uma noite acaba no Procópio da mesma forma que um rio desagua no mar: não por inevitabilidade (há rios que desaguam noutros rios, ou em terra); mas por simples bom senso.

25.5.18

Amor e óleo de fígado de bacalhau

Não te amar é doloroso, por muito necessário que seja. É como beber todos os dias uma dose gigante de óleo de figado de bacalhau. Pode ser bom para a saúde, mas é melhor estar doente.

24.5.18

Vogue Vogue petit navire

Por falar em Playboy: alguém alguma vez leu um artigo da Vogue?

(Li hoje o primeiro, de sempre. Mais vale olhar para as fotografias).

23.5.18

Anúncios

"Homem 42 anos, bom aspecto físico, situação estável, rentável, cultivado e com sentido de humor aceita ser usado para salvar casamentos, testar potencial de sedução de senhoras com dúvidas, ser amado passageiramente como quem espera por outrém."

Não guarda rancores, más vontades ou coisas similares.

Refit, e depois?

Um gajo vai ao Quinta Puñeta e pergunta-se "como para jantar?" responde "Não, estou ao lado do Ca na Chinchilla" (em voz baixa, claro, todo o diálogo) e pensa na J.

Conjugação feliz de acasos? Não. De vontades. O polvo à galega da Chinchilla é maravilhoso, o Albariño idem, da vida então nem se fala.

Mesmo no meio de um refit.

O conforto do calor

"Só me sinto confortada com comida quente" diz-me J.

Mude-se o género e subscrevo a cem por cento.

Infelizmente

Acabo de ter uma conversa interessante com uma jovem senhora a propósito de mamas.

Começo por dizer que as dela passam o teste do lápis sem qualquer compromisso.

"Infelizmente isso não chega" explico-lhe. "Gosto delas direitas ou caídas, fúseas ou abolachadas, com lápis, máquina de escrever ou a apontar para a Lua."

O mais importante não está nas mamas. Infelizmente.

Hesitação balística

Gosto de imaginar balas hesitantes: perguntam--se no caminho se o alvo é mesmo aquele? Ou se é merecido (isto é: merecem--na?) Balas que se desviam milimetricamente do seu trajecto, por causa do vento ou por vontade própria.

Uma bala que hesita é um homem que duvida.

Ruth e a dor

De Ruth guardo um tecido para limpar óculos com uma imagem de um quadro de Van Gogh trazido de uma visita ao museu de Amsterdão e a ideia de que devia ter limpo os óculos antes de ela me deixar e não depois. Agora é tarde.

Era uma miúda alta, muito magra, morena, bonita como o amor que sentia por mim, que era vasto. (E por ela. Narciso passou por ali. Há pecados piores. Esse é invejável).

Uma vez disse-lhe "estás à distância de um grito" e ela respondeu "não posso". O grito era meu por mim, não dela. A verdade é que recusei terminantemente apaixonar-me enquanto ela não "pudesse"; agora recrimino-me: "se te tivesses apaixonado hoje poderia".

Mentira, claro. Mas a história teria sido mais bonita. Isto é: ainda mais dolorosa.

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-05-2018

O refit de uma embarcação é um refit de nós próprios, cada um deles. Refazemos um objecto de sonho e refazemo-nos, refazemos os nossos sonhos todos os dias.

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Escrevo de novo num bloco Clairefontaine. "Tem dos outros, dos que não têm listagem para telefones?" "Não. Ninguém os compra. São muito caros". Agradeço em silêncio a explicação e compro o que tem as divisões  alfabéticas. "São caros porque são bons". "Sim, mas as pessoas não querem pagar..." Perco o resto no espaço sideral da desatenção. Ou do desinteresse, ainda maior.

Penso nas canetas de tinta permanente sem as quais um Clairefontaine e só meio, na merda daquela estúpida queda, quanto tempo falta para que os carris voltem a ser paralelos.

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O café Can Miquel é o meu favorito em Andratx, depois do Cafeína. Ou antes.

(Na verdade esta afirmação tem pouco ou nenhum valor operacional: para além destes dois só conheço o Gastrobar no qual um dia me extraviei e não entra sequer na lista, por notória inadequação.)

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Esperar por fornecedores é pior do que esperar por uma senhora séria. A esta pelo menos não pagamos.

Insónia?

É noite, sabes que é noite mas tens de entrar nela, tens de a atravessar, se lhe deres simplesmente a volta ela nunca se irá embora.

22.5.18

Marqueses

Por muito respeito que tenha pelos monárquicos - e tenho - não consigo deixar de ver naquela preocupação com as ascendências e descendências um certo patetismo.

Parece tudo a brincar, como miúdos a fingir que criam cavalos ou cachorros. "O meu quadrisavô era primo-irmāo do cocheiro do Conde de Serpa, do qual herdou o nome e a prima"; "a minha bisavó era a amante favorita do Rei Eduardo Nono, que lhe fez quatorze filhos antes de conseguirem uma menina, que era o que ele queria (para casar com o filho, como veio a acontecer)"

Além de que ignoram a entropia, princípio básico da física. Não é por acaso que se descende e não se ascende: os genes não melhoram com o tempo. Pioram.

Basta contar as pessoas no nosso país que descendem (sublinhado) de familias ricas, aristocratas, chiques: um bando de tesos na pior das hipóteses, marinheiros ou vadios na melhor.

Pior do que tesos: marqueses.

21.5.18

Janela vs. vontade

A vontade de te amar é mais forte do que o que vejo da janela.

Não é a janela que vou fechar.

Amor e Espírito Santo

"Would you rather love the more and suffer the more; or love the less and suffer the less?"

O livro que comprei hoje começa assim. Depois continua, diz que a questão não é verdadeira porque não se consegue controlar o amor. Estes são os dois primeiros parágrafos. Chama-se The Only Story e é de Julian Barnes.

É claro que se consegue controlar o amor: é um acto da vontade. Não uma pomba que nos cai na cabeça, feita Espírito Santo.

Não gosto de coisas involuntárias. Cheiram-me a erros. Têm o mesmo gosto do que eles, a mesma textura.

Projectos

Um dia voltarei a Oakland só para beber Mai Tai. Há projectos de vida piores, não há?

(Espera, foi Oakland? Verifica.)
(Foi. Trader Vic's.)

Definição - cidade

Provavelmente, definição de cidade é: um sitio onde um gajo pode comprar livros e beber hierbas secas.

20.5.18

A flecha do dia

As coisas são como são e não como as queremos, é facto irrefutável. Mas podemos - devemos - imaginá-las diferentes do que são, sem acreditar no que imaginámos. Exercício de equilibrismo, eu sei. Como tudo na vida: equilibristas na corda bamba, sem balancier.

Gosto de imaginar as coisas - todas as coisas, indiferenciadamente, objectos, actos, tempo, tudo - como se fossem aquelas flechas dos desenhos animados que procuram o alvo, hesitam, voltam para trás, sobem e descem até que finalmente chegam onde as queria o senhor (normalmente é um homem) que as atirou.

Hoje o meu dia, por exemplo foi uma flecha dessas atirada em direcção a um alvo que dizia "Ordem e descanso".

Ordem porque ultimamente me sentia como um polvo a perder a coordenação dos tentáculos. Descanso por razões mais ou menos óbvias.

Felizmente a flecha não perdeu muito tempo à procura do alvo. Antes assim. Posso readormecer em paz.

19.5.18

À espera do churrasco

À partida os planos eram simples: voltar para casa, tomar um duche, engrossar-me rapidamente e ir para a cama. Tudo correu mal desde o princípio: cheguei como previsto a Paguera, fui ao "escritório" beber uma cerveja (até aqui tudo bem) e ao supermercado Casa Pepe, cujo dono - Pepe, por coincidência, mas não o "meu" Pepe - é um chato mas tem uma carne esplêndida, salva seja, claro, a decência. A minha obrigação era comprar carne e vinho, mas um homem que tem carne tão boa tem de certeza um bom pâté au poivre e um bom queijo de Menorca. Em casa havia pão, manteiga e um fouet por acabar, bem como uma garrafa de vinho tinto meia aberta (falta uma vírgula).

Adivinhem o que aconteceu?


Assim é impossível um gajo engrossar-se, seja depressa seja devagar.

18.5.18

Colina, in contradictio

Nada de colossal nisto, ouve. Não passa de uma pequena colina que se trata de subir. Nunca desce, só sobe.

Enfim, sim, desce. Às vezes. Poucas. No fim vais ver que acabas mais alto do que quando começaste. Andaste às voltas e não te apercebeste de que subias. Era pouco, também, verdade seja dita.

Tens aproximadamente oitenta anos para a subir. Descer é instantâneo.

Um longo e interminável gin tonic

A ideia apelativa de que é possível separar as coisas umas das outras é irreal. O gin tonic que agora bebes no bar Stop em Paguera está relacionado com o que um dia bebeste não sabes onde nem quando, com a miúda por quem estás pronto a apaixonar-te, se ela quiser, com um livro da Marguerite Duras cujo título falava de Gibraltar, com os teus devaneios em Veneza há quarenta anos. Tudo o que hoje acontece está no fim de uma longa linha que foste paciente mas ignorantemente tecendo ao longo dos anos. A vida é um sono interrompido por meia dúzia de sonhos, mas é sempre o mesmo sono. E se fores a ver bem se calhar até o mesmo sonho.

Mudam os bares e os olhares, as mãos e os ventres, as palavras de uns e outros; mas hoje estás aqui como ontem estavas em Bastimento no Palmar Tent Lodge, no fim de um dia de trabalho a beber um rum punch; ou no Lagoonies a beber outro rum punch que era o mesmo, um prolongamento; já amaste a mulher que hoje amas, a caipirinha que bebias em S. Luis no Bar do Porto ainda não acabou.

Nada nunca acaba. O calor de ontem é o de amanhã, como a sorte, o azar, a dúvida.

Uma longa e interminável dúvida, sempre a mesma. Uma longa e interminável busca. Até os erros são os mesmos, vestidos de cores diferentes: aprendes a mudar-lhes a cor, é tudo.

Sonha; vive; engana-te; aprende; esquece; reaprende; cai; levanta-te; falha; acerta: tudo isso está nesse gin tonic que agora bebes num obscuro bar "familiar" de Paguera.

(Para a L., com um beijo).

17.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-05-2918

A senhora tem mais de sessenta anos, deve andar perto dos setenta, ponham ou tirem cinco. Está visivelmente grossa, mas composta.

Diz-me "primeiro os maiorquinos, depois os estrangeiros". Respondo "primeiro as senhoras, sejam de onde forem", mas ela não regista. É a amiga que lho mete na cabeça e acrescenta "o senhor é um cavalheiro".

Ao meu lado está alemão apalhaçado. Fala sem parar e ouve-se falar, sem se aperceber de que é um chato sem piada, ao contrário do que pensa.

A lista de personagens é curta mas o almoço excelente (uma sandes de presunto e dois chocos comprados no stand ao lado. Um gajo traz as compras para este e eles cozinham).

Tudo começou porque estava perto do mercado de Sta. Catalina e quis beber um vermute da U., que de dia trabalha aqui e à noite tem a Sifoneria. Apareceu um senhor - cliente dela - com um prato de presunto para provarmos. Acabei por ficar-me a ver e a ouvir. Retribuí o presunto ao senhor com uma cerveja e pensei em quantos Charlies (é o nome do alemão, há destinos que nos são fixados à nascença) já vi por esse mundo fora. E no que é bom encontrar um desconhecido que nos oferece um bocado de presunto e aceita uma cerveja. A nossa troca limitou-se a isto, mas é preciso tão pouco, não é? Um gesto chega, um braço estendido para oferecer, outro para aceitar, um sorriso, um momento que se partilha, um prazer oferecido, toma, prova, é bom.

A U. não vende comida, a cena passa-se num stand lá perto, estou sentado num canto do balcão como se estivesse num canto do cinema.

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Isto foi há alguns dias; entretanto muita água passou por baixo das pontes, clara, fresca, há que fazer no P. mas aquilo avança com a habitual mistura de boas e más surpresas, de tanto se repetirem já nem surpresas são, é só uma alegria embrulhada em papéis diferentes.

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Descobri um restaurante italiano perto do hotel (ou de casa?) e hoje fui lá comer uma pasta al nero di sepia que estava má. Quando se comeu aquilo feito por um cozinheiro atrasado mental que só sabia fazer seis pratos mas os fazia tocado pela graça (a única no meio da desgraca toda) é difícil. Menti ao homem, disse-lhe que estava muito bom. É o que dá pedir pratos que não estão na lista, teve de ir comprar a tinta mai-los chocos e depois vai de caminho inunda aquilo de tomate (ele não, a cozinheira, magra de tal forma que um canibal pensaria estar a comer peixe se lhe pusesse o dente), mas bom.

O pior foi ter comido de mais. Assim não emagreço, que maçada.

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Entretanto já o ano vai a meio, que é como quem diz acabou.

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Diálogo sucinto mas agradável com uma "amiga" (entre aspas porque) do Facebook. Fez-me ir à procura de um post que com um bocadinho de sorte merece algum trabalho.

Este ano o DV vai fazer quinze anos! Está lá tudo (quase).

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Quem envelhece é o blog, não eu. Deviar ser ao contrário. Mas como, se os dias são todos novos?